Um Propósito Maior Pelo Brasil

Em 9 de novembro de 2019, o povo começou a voltar para as ruas.

Estratégia é um conhecimento fascinante, uma das disciplinas da Administração que eu considero mais instigantes. Um saber provocativo que proporciona a você óculos para enxergar o mundo com melhor nitidez – os fatos empresariais e até mesmo a trajetória de Gestores ficam muito mais claros. A Estratégia é formulada a partir de um conjunto de boas perguntas conectadas umas às outras, que orientam o pensamento e a reflexão para criar uma organização que faça sentido e diferença para o mundo.

Essas perguntas se transformam em pontos de investigação e aprendizagem aplicáveis a qualquer tipo de organização, não importa o tamanho, a natureza e o setor. Com o tempo, a prática do exercício de reflexão estratégica em casos diversos vai apurando o seu olhar e educando o seu pensamento. O treino logo faz saltar aos olhos a singularidade das respostas dadas por uma marca à essas questões chave – ou também revela as lacunas que significam fragilidades perigosas. 

Eu me apaixonei pela Estratégia exatamente por essa possibilidade de compreender e ajudar a aprimorar os mais diversos fenômenos organizacionais, desde uma empresa privada, ONGs, escolas, hospitais, ou até mesmo entidades de fomento e governamentais. Embora cada caso tenha suas particularidades intransferíveis, hoje eu consigo interpretar trajetórias de empreendedorismo meteórico, a ascensão de grandes potências empresariais, a gênese de crises corporativas violentas ou startups que não deram em nada, apesar de pilotarem uma ideia nova e surpreendente.

Com esses mesmos óculos, torna-se ainda mais evidente para mim os buracos insustentáveis e profundos na Estratégia atual do Brasil como nação, uma fragmentação que subtrai potência de diversas iniciativas de Ministérios do Governo Federal, e causa todo tipo de problemas, confusão, medo e desencantamento com um país que poderia ser muito melhor.

Eu confesso que titubeei inúmeras vezes sobre escrever um artigo para abordar temas que hoje parecem despejar gasolina na fogueira. Até porque fico chocado de ver a potência destrutiva dos extremismos e da intolerância que inunda nas redes e mídias sociais. As pessoas mal conseguem escutar uma opinião sem partir para o ataque fanático pela esquerda ou pela direita, como se os dramas tão primários da sociedade brasileira tivessem inclinação política.

Por isso, quero deixar bem claro que estou fazendo aqui uma análise desprovida de paixões políticas e seus protagonistas, ou preferências por um lado ou outro do debate. E também quero ressaltar que uma Agenda Nacional é extremamente mais complexa que a Estratégia de uma empresa, e não pretendo ser reducionista, muito pelo contrário. Estou apenas tentando demonstrar que o conhecimento da Estratégia, que nos ajuda a entender o sucesso e o fracasso de qualquer organização, também nos ajuda a entender parte do desconserto atual do país. Se este artigo ajudar você a interpretar melhor o discurso e as propostas dos seus candidatos em futuras eleições, esse texto já terá valido a pena.

O Brasil hoje sofre a falta de uma visão estratégica integrada sobre o futuro que queremos construir e os caminhos que vão nos levar até lá. Essa lacuna aumenta o nível de incerteza e estimula o confronto das diversas partes da sociedade, ao invés de aglutinar apoio para vencermos os desafios enormes que ainda temos pela frente. Estratégia tem de ser uma resposta para os problemas e as oportunidades do mundo contemporâneo, e não uma colcha de retalhos de programas, alguns muito bons e pertinentes e outros absolutamente dissonantes da realidade atual e das tendências que estão transformando o mundo.

A estratégia atual do país está focalizada no saneamento urgente e crítico das finanças públicas, e esse talvez seja o principal legado da gestão de Temer e do atual mandato de Bolsonaro. Mas temos inúmeros pontos cegos estratégicos que podem levar o povo de volta às ruas, um movimento que só tende a piorar sem uma revisão da estratégia e um diálogo franco e equilibrado com a sociedade, para reverter esse panorama de tensão cada dia mais acirrado. 

Vou procurar focalizar aqui alguns princípios que são aplicados para nortear a criação e a implementação de estratégias nas empresas, e que poderiam ser consideradas pelo Poder Executivo. 

Em primeiro lugar, precisamos de um Propósito Maior para direcionar a Estratégia de Governo. Uma missão que promova um significado inspirador e unificador para nós brasileiros, e que tenha o potencial de integrar a infinidade de partidos políticos e as diversas instituições democráticas em torno de uma causa nobre comum. Uma finalidade suprema para orientar as escolhas e não-escolhas durante a formulação das Estratégias e dos Programas em cada esfera governamental. 

Eu arriscaria que o Propósito Maior para o Brasil poderia ser, por exemplo:

Reduzir a desigualdade social e de oportunidades para garantir a liberdade de escolha, a mobilidade social e o bem-estar dos brasileiros

Essa finalidade estabeleceria uma causa pela qual o país adoraria lutar e ajudaria a antecipar o posicionamento do Brasil diante dos movimentos populares que vêm derretendo alguns países da América Latina, como Chile, Venezuela e Bolívia. A desigualdade é um tema global extremamente urgente, que também ajuda a explicar a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, pela crença de um possível retorno ao passado em que havia menor desigualdade na sociedade americana. Sem um novo Propósito que, como a própria nomenclatura indica, seja Maior que as paixões e ideologias políticas e amplamente discutido com a sociedade, corremos o alto risco de ver acontecer no Brasil o efeito-Chile, que seria um pesadelo neste nosso momento de recuperação econômica. 

Em qualquer organização bem administrada, o Propósito Maior é uma bússola valiosa para orientar o processo decisório em nível estratégico e mobilizar o engajamento de todos na sua realização. Um Propósito forte pelo Brasil, amplamente comunicado e implementado, ajudaria a unir o país – que conserva diversos Brasis não somente do ponto de vista cultural, mas também pela divisão ideológica entre partidos políticos que por vezes parecem advogar mais por causa própria do que pelo bem geral da nação.

Em segundo lugar, temos de inventar um novo futuro para o Brasil. O Governo Federal precisa propor uma nova Visãoque represente o futuro mais atrativo para o país, desde que seja aderente ao espírito dos tempos e aos grandes anseios do Brasil e também do mundo já ultra conectado e interdependente pela globalização. Precisamos de uma visão que reflita um desafio complementar e consistente com o Propósito Maior, para juntos darem um novo rumo a inúmeros projetos estratégicos que tanto precisamos. 

Ao pensar em exemplos de Visões de Futuro que poderiam ser atrativas para o Brasil, o primeiro que me veio ao pensamento parece descabido diante das posturas adotadas pela atual gestão federal sobre o tema do aquecimento global e do imperativo climático. Mas por isso mesmo seria oportuno parar de caminhar na contramão da história e propor uma visão que todos esperam do Brasil, por nós brasileiros e pelo mundo que nos assiste pelas mídias sociais. Nesse sentido, uma Visão de futuro para nós poderia ser: 

Conquistar a liderança global em preservação do clima e do patrimônio genético da natureza, a serviço dos avanços da ciência pela saúde das pessoas e pela sustentabilidade do planeta. 

O Brasil precisa de governantes que repitam incansavelmente uma nova narrativa, desdobrada em programas de governo que criem uma agenda nacional poderosa, capaz de oferecer um rumo claro, inspirador e desafiador para o país, e que esteja acima dos interesses particulares dos 3 Poderes da República. Uma narrativa que oriente o diálogo do Governo e de seus Ministros com a sociedade e a imprensa. Uma lógica que ofereça uma visão de mais longo alcance do que conter a hemorragia fiscal e a recuperação do PIB.

Não temos objetivos explicitamente conectados a um propósito maior e a uma visão como esses exemplos, que sirvam de bússola para o debate político em torno do Brasil que queremos construir no presente, mas com vistas a um futuro sustentável. Um Brasil que anseia por ocupar uma posição de singularidade no mundo globalizado. Temos de criar uma narrativa que explique para o mundo a que viemos, porque somos relevantes e em quais temas queremos ser protagonistas das transformações que diversas outras nações também gostariam de promover.

Em terceiro lugar, definido o rumo, precisamos de Valores elevados e supremos para definir a ética das atitudes de todos no Governo durante a elaboração das Estratégias e, inclusive, na fase de execução. Em qualquer organização, Valores estabelecem premissas para orientar as atitudes e os debates internos ou com o mercado. Valores orientam a tomada de decisão e criam anticorpos sociais que protegem a organização de pessoas desalinhadas com os fundamentos mais amplos e imprescindíveis para criar o movimento evolutivo que a empresa precisa. No entanto, Valores fortes exigem consistência e correlação inequívoca com o Propósito, a Visão e os pilares da Estratégia. 

Alguns Valores para o Brasil são óbvios, até porque estão previstos na Constituição, mas que precisam de revitalização e reafirmação constantes. Outros podem ser criados ou atualizados para a realidade do mundo contemporâneo. 

Vou citar alguns exemplos: 

  1. Democracia acima de tudo; 
  2. Abertura ao Contraditório e Liberdade de Expressão; 
  3. Solidariedade e Justiça Social; 
  4. Cultura Ética e combate à Corrupção; 
  5. Profissionalismo com Dinamismo – para transformar a imagem de ineficiência da Gestão e do Funcionalismo Público que não conseguem acompanhar a velocidade da nossa sociedade; 
  6. Respeito à diversidade – em um país marcado pela miscigenação de diversas culturas e origens; dentre outros.

Valores, mesmo que óbvios, precisam ser constantemente comunicados e reforçados em associação às decisões estratégicas que são tomadas no âmbito da agenda de programas de Governo.

Eu acredito que diversas estratégias em curso no Brasil são corretas e necessárias, como por exemplo a busca obstinada pelo equilíbrio fiscal, que teve como centro de gravidade recente a Reforma da Previdência, e será complementada no futuro próximo pelas Reformas Administrativa e Tributária. Uma nação que gasta muito mais do que gera de riqueza produz um câncer maligno que com o tempo coloca tudo a perder, e produz um atraso que joga no lixo um tempo que nunca mais vai voltar.

Também precisamos fortalecer o ordenamento jurídico que proporcione ao Estado melhores recursos e ferramentas para lutar contra o Crime Organizado. Recentemente, presenciei um debate na Fundação Fernando Henrique Cardoso, com especialistas e autoridades sobre o tema que me deixaram estarrecido. Esse é outro câncer que já se espalhou no subterrâneo da vida pública e do nosso cotidiano, e que me deu a impressão de ser irreversível se não agirmos imediatamente, de maneira sistêmica e absolutamente contundente com inteligência e planejamento.

Se por um lado temos programas corretos na esfera da economia, ainda que o crescimento esteja mais lento que todos precisamos, temos outros pontos cegos em políticas públicas que são vitais para acertar a mão na Estratégia do Brasil como nação, como a Educação e o Saneamento Básico. Nosso Governo tem insistido em errar na escolha do Ministro da Educação, e na Estratégia por eles adotada. 

A China já se tornou o segundo cavalo motor da economia mundial, e em 10 anos deverá passar os Estados Unidos também porque tomou decisões coerentes na Educação. Um exemplo muito simples: a China tinha consciência de suas deficiências profundas em Infraestrutura há 30 anos, e sabia que para tapar esse buraco teria de focalizar a Estratégia no fortalecimento do Ensino Fundamental e Médio, e na formação de mais Engenheiros competentes. Dos poucos Engenheiros que o Brasil forma por ano, a maioria vai para o mercado financeiro ou startups de tecnologia. Na Luzio, recebemos diariamente bons currículos de jovens Engenheiros prestes a se formarem pedindo emprego na nossa consultoria de estratégia empresarial. Com os gaps de infraestrutura que também temos no Brasil, como vamos viabilizar nossos projetos com os poucos talentos que temos hoje? O fosso em que atolamos a Educação logo vai se aprofundar com o apagão de mão de obra qualificada para as necessidades do mundo empresarial contemporâneo. Um apagão que já estamos enfrentando em áreas que exigem competências em análise de sistemas e tecnologia. 

Todas essas questões tornam-se ainda mais evidentes pela discrepância que muitas das nossas políticas públicas e projetos da agenda nacional têm em relação ao rumo que já deveríamos estar abraçando para o Brasil. Estratégia que só mira a solução de problemas do presente, como a nossa sangria fiscal que temos de resolver, mas sem adicionar um olhar para o futuro que devemos construir desde já não é Estratégia, é plano tático sem visão de longo-prazo. Na minha opinião, deveria ser obrigatório aos políticos serem certificados em cursos de Estratégia, para se darem conta do poder de algumas regras básicas que precisam ser respeitadas no exercício de posições de liderança

Um novo Propósito Maior e uma Visão de Futuro podem oferecer um novo rumo atrativo para o país. E com Valores coerentes e diariamente disseminados, o Poder Executivo teria ferramentas mais poderosas para orientar a formulação da sua agenda de programas, e nortear a seleção de Ministros que garantam o desenho correto e a execução eficaz das Estratégias. Há que se promover um diálogo incansável e ainda mais poderoso com a sociedade, para mobilizar a construção do país que todos nós queremos oferecer para as nossas filhas, os nossos filhos e seus descendentes.


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