Temos de Aprender a Errar

Imagem: agilidade é uma competência organizacional mandatária no mundo contemporâneo
Imagem: agilidade é uma competência organizacional mandatária no mundo contemporâneo

Errar rápido e pivotar (mudar) até acertar é uma competência organizacional que temos de desenvolver com urgência nas empresas. Embora este seja um dos principais mantras dos empreendedores para tornarem suas startups vitoriosas, também deveria ser um pilar de sustentação da cultura de qualquer organização.

Todos os jovens empreendedores compartilham um aprendizado comum: a Estratégia inicial (o primeiro Modelo do Negócio) muda várias vezes até encontrar sua melhor versão, que permanecerá em vigor até que choques de contexto exijam nova adaptação ou até mesmo transformação. A única estrutura que permanece a mesma e atua como fio condutor nesse processo de pivotagem é o Propósito Maior do projeto, a causa maior por trás do empreendimento. Afinal, para esses jovens, o desejo genuíno de mudar o mundo está acima da vaidade, porque eles não querem ser reconhecidos pela concepção de uma ideia original imbatível que nasceu perfeita desde seu primeiro insight. O sonho maior desses jovens é provocar uma revolução na vida das pessoas que vão se servir do ecossistema do Modelo de Negócio criado por eles. O “princípio do legado” que Maslow alocou no topo de sua Pirâmide das Necessidades Humanas, como sendo algo a emergir bem adiante na vida, é combustível para as novas gerações já na adolescência ou início da fase adulta.

Essa cultura do erro é uma realidade lá no Vale do Silício, berço da inovação e de inúmeras disrupturas emergentes na Califórnia norte americana. Para os jovens e seus projetos encubados ou plugados nos diversos hubs de co-working em São Francisco e região, erro é parte integrante e necessária do processo de aprendizagem. Empreendedor que nunca errou não tem uma boa história para contar, já que isso faz parte da aventura épica de inovar. E contam uns aos outros suas histórias de acertos e erros com total abertura, para que possam aprender uns com os outros, num autêntico processo de fertilização cruzada.

No Brasil, porém, ainda temos barreiras culturais bastante relevantes a vencer. Tratamos o erro como pecado inadmissível que se desdobra em repreensão de diversas modalidades. O mérito está em acertar de primeira, sem deslizes, como se falhar fosse sinônimo de incompetência e fracasso. Esta visão está completamente equivocada, obsoleta e inadequada para qualquer empresa (jovem ou madura) sobreviver e ter sucesso sustentado na Era das Disrupturas.

Esta mudança cultural vai levar muito tempo para acontecer, por isso temos de começar agora uma abordagem multidisciplinar em todos os planos da vida social e corporativa.

As escolas de ensino Fundamental e Médio precisam revolucionar os métodos de avaliação do aluno, que criam uma marca profunda de fracasso e vergonha associada ao esforço de autossuperação, logo nos primeiros anos de vida. Como pais, também temos de reaprender a estudar com nossos filhos, e ensiná-los a corrigir os desvios de percurso naturais do processo evolutivo de maneira construtiva e não punitiva. Tratar os erros honestos dos filhos nos estudos e nas avaliações com medo de insucesso no futuro, adiciona um peso aos ombros da criança difícil de carregar no presente.

Os meios de comunicação vivem do culto às celebridades como pessoas iluminadas e escolhidas a dedo por Deus, numa criação distorcida de referências supostamente inspiradoras para as pessoas comuns.

As empresas preferem valorizar e promover os heróis infalíveis, marcados por feitos extraordinários, e repreender os que erram honestamente ao tentarem acertar o melhor caminho. As abordagens de avaliação de desempenho tratam falhas como incompetência ou falta de visão estratégica, prejudicando o reconhecimento merecido de quem tentou praticar a pivotagem.

Lembro-me dos primeiros 10 anos da Luzio, em que realizávamos Pesquisas de Clima e Engajamento como parte do Diagnóstico Estratégico nas empresas. Um dos indicadores mais mal avaliados e duramente criticados nos grupos de foco refletia o temor das pessoas de “discutir abertamente os problemas para solucioná-los, em vez de ficarem procurando culpados”. Nos mais diversos níveis hierárquicos, a “caça às bruxas” substituía a busca coletiva pelas causas raízes e a pivotagem como desdobramento natural do processo.

Os empresários campeões viram capa de revista e são cortejados pela imprensa enquanto estiverem acertando. Ao fracassarem – porque errar faz parte do ato de empreender -, são tratados como perdedores que não têm nada a nos ensinar, apenas envergonhar.

Como vamos formar jovens capazes de criar e prosperar num mundo de alta velocidade evolutiva e de futuro simplesmente imprevisível, onde disrupturas provocam de tempos em tempos a ascensão e queda de grandes potências empresariais? Precisamos aprender e ensiná-los a errar e pivotar.


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