Não Seja Escravo da Câmera

A fotografia despretensiosa é um treinamento prazeroso do olhar para reconhecer os cantos e segredos mais inusitados do cotidiano.

Adoro fotografar por acaso, salvar as imagens ou recortes que me desaceleram repentinamente para viver um instante de contemplação – um momento de respiro prolongado para curtir um detalhe da vida que até então passava desapercebido.

Beleza e surpresa também se encontram nas cenas mais simples de todos os dias, mas vivem anônimas pela correria de uma rotina sempre atribulada. Por isso, não é preciso sair para fotografar, porque as melhores cenas nos descobrem, aparecem simplesmente do nada.

Óbvio que também faz parte da construção da nossa história registrar momentos sublimes que não vão voltar nunca mais, como o sorriso das nossas filhas em cada etapa ou momento de alegria da vida; aquelas viagens maravilhosas ou passeios inesquecíveis ao lado do nosso amor e de pessoas queridas; conquistas profissionais que marcam a jornada em busca do nosso propósito maior. Cenas cujos detalhes temos vontade de rever, recordar as cores e sutilezas daquele instante que passou.

Mas não gosto de ser escravo da câmera. Sempre haverá perda ao interromper um instante de encantamento para bater uma fotografia. Por diversas vezes, eu opto por deixar aquele clique passar, para tão somente imprimir no fundo da alma as emoções que aquela cena proporciona, por tão trivial que possa parecer.

Uma das minhas cenas preferidas do filme “A Vida Secreta de Walter Mitty” (2013) ilustra com perfeição meu sentimento. Walter Mitty, representado por Ben Stiller (e dirigido por ele mesmo), parte para a missão de encontrar o grande fotógrafo Sean O’Connel e recuperar a fotografia que produziria a capa da edição final impressa da Revista Life. Interpretado com o brilhantismo de sempre por Sean Penn, o fotógrafo atravessou o mundo e foi para o alto do Himalaia no Afeganistão selvagem, na esperança de conseguir fotografar o Leopardo das Neves.

Depois de esperar horas, camuflado e exposto ao frio, Sean consegue ver por sua teleobjetiva o Leopardo saindo do seu esconderijo – uma aparição que não duraria sequer um minuto por completo. Sean ficou paralisado, admirando extasiado aquele animal imponente e absolutamente raro. Mitty, confuso, pergunta:

– Quando vai tirar a foto?

– Às vezes não tiro… Se eu gosto de um momento, quero dizer, eu pessoalmente, não gosto de ser distraído pela câmera. Só quero ficar nele (no momento)… é como agora, bem aqui…

Sean simplesmente não tirou a foto… para não ser distraído pela câmera.


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