Frutas e Vegetais Inglórios

Harvard define empreendedorismo como sendo “a busca obstinada por explorar oportunidades que vão além dos recursos disponíveis”. Todos os empreendedores de sucesso que conhecemos carregam este programa nos seus DNAs: tiram leite da pedra, construindo um foguete com pouco ou quase nenhum dinheiro, agregando seguidores que se apaixonam pela causa e querem estar do lado daquele que um dia será um sucesso. Assim, fazem milagre.

As grandes empresas, por outro lado, com o tempo ficam preguiçosas. Refutam novas ideias rompedoras de paradigmas, porque sem evidências concretas para provar que aquele caminho é verdadeiramente incrível e de alta probabilidade de sucesso, melhor não arriscar. E vivem no piloto automático do status quo, no lugar comum do mais do mesmo. Fazem melhorias, mas demoram para promover breakthroughs, mudanças relevantes de posicionamento e de visão estratégica. 

Mas ainda bem que existem grandes empresas que conseguem incorporar na cultura organizacional o DNA do empreendedorismo. Exemplo maravilhoso disso é o que conseguiu fazer a Intermarché, uma das maiores redes de supermercados da França, criando a estratégia do Ugly Fruits.

A Intermarché começou a comprar de seus fornecedores aquelas frutas e legumes horrorosos (batatas deformadas, cenouras retorcidas, laranjas defeituosas, dentre outras), que normalmente jogam fora porque fogem dos padrões de exigência do varejo (520 milhões de toneladas são jogadas no lixo todo ano).

Compradas a preços irrisórios, deram para as frutas e vegetais feios uma área própria nas lojas, à venda com 30% de desconto em relação aos produtos esteticamente perfeitos. Criaram embalagens bonitas, verdadeiras peças provocativas de design para vender o feio tão nutritivo quanto o belo, por 30% a menos. 

Lançaram as “Sopas Inglórias” e os “Sucos Inglórios” nas lojas, prontos para o consumo, em embalagens carregando o mesmo design.

Produziram cartazes e propagandas muito bem humoradas, que mobilizaram o espírito anti consumista que vem se alastrando progressivamente na cultura francesa – no ano passado, a União Européia lançou uma campanha em larga escala contra o desperdício de comida.

Resposta do mercado: em média, a Intermarché vendeu 1,2 toneladas das Ugly Fruits por loja da rede, nos 2 primeiros dias da campanha! Em 1 mês, engajaram 13 milhões de pessoas nas redes sociais. O buzz criado levou mais gente para as lojas: o tráfego aumentou 24%! Óbvio que os me toos (seguidores) entraram em ação… A rede francesa Monoprix lançou em seguida sua versão das Ugly Fruits.

Percepção apurada do espírito dos tempos, com baixo investimento, alta margem, tirando leite da pedra e desafiando os padrões do status quo do varejo francês, sempre tão rigoroso e primoroso com a estética de tudo o que vendem nas gôndolas dos supermercados. Este é o espírito do empreendedorismo, aflorado em uma grande empresa como a Intermarché.


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