Executivos Precisam Dançar

Imagem: stock.tookapic.com
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O que nós, Gestores, temos a aprender com a Social Dance
Fernando Luzio e Fabiana Terra

O mundo corporativo vive procurando metáforas que ajudem a despertar consciência nos executivos sobre as sutilezas mais poderosas do exercício da liderança e do trabalho em equipe. Atividades diversas, praticadas nas convenções e nos workshops estratégicos, fazem analogias lúdicas com o cotidiano organizacional a fim de fomentarem o autoconhecimento: simulação de um cockpit de Fórmula 1 e competições para construção de maquetes de Lego em equipes, ilustrando os caminhos para uma melhor comunicação, coordenação do trabalho colaborativo, gestão do tempo e dos recursos disponíveis; criação de um bloco de escola de samba para explorar as habilidades de improviso, simplicidade, criatividade e ousadia; disputas em atividades esportivas normalmente ao ar livre, para explorar o poder da cooperação, a complementaridade das habilidades diversas e a sintonia entre as pessoas do time; dentre outras. No entanto, não temos nos deparado com empresas fazendo bom uso da social dance ou dança de salão, a qual comprovamos ser capaz de contribuir para o aprimoramento das habilidades socioemocionais que formam bons líderes e times de alta performance.

As propriedades terapêuticas mais evidentes de dançar são a alegria e a troca de energia que o entrosamento do corpo com a música sempre proporcionam – saímos mais motivados do salão e transportamos aquela vibração positiva à vida pessoal e ao trabalho. Mas um bom professor também pode nos fazer perceber, por meio da dança, como nossas crenças, hábitos e paradigmas influenciam nosso comportamento de líder ou colaborador de uma equipe de alto desempenho. Há tempos, temos ensaiado escrever sobre alguns dos paralelos que fazemos entre a dança de salão e o mundo do trabalho.

Foto: Claus Tom
Foto: Claus Tom

De modo geral, nos estilos de dança a dois convencionou-se que o homem decide os movimentos iniciais e conduz o par (leader), e a mulher desdobra os movimentos propostos (follower). No West Coast Swing californiano, por exemplo, mulheres também realizam o papel de líderes e os homens de seguidores. O fato é que, na dança social, o líder indica o caminho, mas quem dá o show é seu par. Ele forma a moldura do quadro, mas quem pinta a tela é a dançarina. Ambos executam tarefas complementares em prol de um objetivo único. Não há lugar para o sucesso solitário, isolado. O resultado final encantador estará sempre na dupla que melhor trabalhou em equipe.

Dançar a dois é um exercício de comunicação coordenada e precisa, mesmo sem falar uma só palavra. O uso das mãos e do body language são os veículos que temos para sinalizar o que queremos fazer e alcançar enquanto conduzimos a dança. O fato é que se o líder não deixar claro para a dançarina o caminho a seguir em cada passo, ela poderá interpretar os sinais de maneira equivocada, errar o passo, perder o ritmo e o resultado final será um desenho do movimento no mínimo desajeitado. Por outro lado, se a dançarina não estiver aberta para receber os sinais, agindo com ansiedade e antecipando suas manobras, haverá uma grande desarmonia entre os dois. Ao final, as damas usam sempre a mesma expressão ao elogiar os cavalheiros: “Adorei sua condução”, em uma demonstração de entendimento claro dos caminhos transmitidos em cada movimento.

No trabalho em equipe, o líder precisa sempre comunicar com clareza as diretrizes a serem seguidas – caso contrário, o time não vai produzir o resultado esperado e o retrabalho e o desperdício de recursos serão inevitáveis. Mas na era da comunicação em duas linhas das redes sociais, a qual favorece o descuido crescente no uso da língua para definir com precisão semântica o que se quer dizer, vemos gestores enviar sinais duvidosos ou ambíguos que podem fazer o time errar e ter de começar de novo – além da tensão e da frustração emocional. Na dança de salão, aprendemos que a interpretação correta dos sinais de comunicações direta e indireta do líder é causa determinante da percepção das possibilidades, da beleza e do prazer de dançar, objetivos essenciais da dança. Um olhar frio ou distante do líder impacta diretamente a motivação e o engajamento da dançarina. Se ela tiver a sensação de que ele está distante ou não está satisfeito, vai perdendo o entusiasmo e executando apenas o mínimo de passos dentro dos movimentos propostos. O mesmo acontece quando um gestor conduz uma reunião com gestos enigmáticos, por vezes erroneamente interpretados como irritação, desânimo ou desaprovação – mesmo que no fundo ele só esteja triste por ter enfrentado, na véspera, algum problema de natureza pessoal.

Na dança, exercitamos a cada instante as habilidades de planejamento e tomada de decisão. Como em um jogo de xadrez, enquanto executamos um passo, já temos de pensar nos próximos dois. Devemos escolher qual será o melhor repertório de movimentos a concatenar naquela dança, de acordo com o contexto e o momento da música; espaço físico disponível; o estilo, a altura e o aparente nível de dificuldade do par. Tudo isso em poucos segundos, entre um passo e outro. Ainda assim, situações novas e inesperadas exigem alteração do que foi planejado: outra dupla pode invadir o espaço no qual você contava executar um movimento; a parceira pode não entender um sinal e acabar fazendo outro passo que irá desencadear em uma outra ideia; a música pode fazer um breque e o movimento ser interrompido a fim de poder adequá-lo melhor àquele novo momento.

Essa é uma representação bastante rica da dinâmica que vivemos diariamente no mundo empresarial. Continuamente, devemos praticar a empatia com o cliente ou consumidor e interpretar corretamente os sinais do mercado. A cada manobra de posicionamento, temos de avaliar suas consequências, os riscos e os desdobramentos possíveis, para anteciparmos as ações seguintes, e até mesmo lidarmos com situações e reações inesperadas do ambiente competitivo. Tudo isso com agilidade porque o mercado, hoje, não perdoa mais os gestores pela falta de rapidez na tomada de decisões urgentes.

Foto: Michael Swan
Foto: Cena do filme Dirty Dancing

 

Problemas surgem quando o líder não sabe se posicionar com firmeza e o time não está aberto para ouvir. É muito comum líderes demorarem ou não saberem tomar atitudes firmes, optando pela procrastinação da decisão. Na dança, praticamos essa habilidade essencial, pois a condução não pode ser nem fraca nem forte demais, mas, sim, precisa. Por outro lado, aprendemos que o líder só conseguirá “falar” o movimento se o par estiver aberto para “ouvir”; caso contrário, será uma briga de poderes que vai afundar o resultado final.  Assim, não importa quem lidera ou quem é conduzido, mas o resultado final do trabalho em conjunto.

Durante a dança, é altamente arriscado perder o foco e pensar em outra coisa que não sejam no par e nos elementos que vão desenhar aquela dança. Caso contrário, o dançarino vai errar, pisar no pé da parceira, perder o ritmo ou desanimar a dançarina, a qual realizará passos simplórios ou mecânicos, ansiosa por terminar a música e, com isso, desmotivando o líder. A dinâmica inversa também acontece. Por isso, durante aqueles poucos minutos, ambos devem se concentrar em darem o melhor de si mesmos para que o conjunto da obra seja bonito e prazeroso.

Nas reuniões de trabalho, temos observado pessoas com dificuldade crescente de se concentrarem apenas naquele momento, por motivos diversos. A síndrome da conectividade permanente provoca distrações frequentes, porque estimula as pessoas a ficarem ligadas em tudo o que está acontecendo no mundo lá fora por meio dos seus smartphones, tablets e notebooks. O stress e a sobrecarga de atividades e de funções também provocam dificuldade de concentração e exigem um esforço adicional para elas se manterem presentes. Com tudo isso no meio do caminho, a produtividade das reuniões é bastante prejudicada e o resultado muitas vezes insatisfatório. O olho no olho, tão fundamental na comunicação interpessoal, tem sido interrompido pelas mais variadas distrações. A dança social é um excelente treinamento para ajudar a recuperar essa habilidade fundamental de concentração no líder ou nos pares que trabalham juntos nas reuniões e oficinas de trabalho.

Foto: Michael Swan
Foto: Michael Swan

Na vida corporativa, o medo de errar e suas consequências imprevisíveis fazem com que as pessoas por vezes reprimam pensamentos ou atitudes inovadoras. Na dança social, o erro faz parte do processo e deve ser encarado com naturalidade, assim como a rapidez em corrigi-lo e continuar, sem criar melindres entre os dançarinos – até porque o erro pode indicar novas alternativas e novos caminhos que não haviam sido concebidos ou planejados. Uma dança dura em média três minutos. Se a cada erro ambos ficarem se desculpando ou se punindo pela falha, a música termina e o resultado será puro constrangimento.

Nas reuniões e oficinas de trabalho nas empresas, vemos as pessoas temerosas de arriscarem pensamentos ou propostas fora da caixa, porque até mesmo o erro honesto é interpretado como pecado, sinônimo de incompetência, e é repudiado. Por isso, com frequência as pessoas preferem sugerir caminhos mais comedidos, os quais vão provocar um impacto mínimo na empresa caso a alternativa escolhida não tenha sido uma ótima ideia. No entanto, aprendemos com os empreendedores a sabedoria da “pivotagem”. O princípio é simples: “É bem provável que vamos errar ao introduzirmos algo novo; então, é melhor errar rápido e mudar do que ficar parado tentando ocultar o deslize ou insistir no erro”. Esse princípio da “pivotagem” é exercitado o tempo todo na dança. Ao errarem um passo, tanto o líder quanto o par não se deixam abater: fazem a correção do percurso e seguem adiante. Quando um aluno erra em uma aula de dança, é muito comum ele ouvir do professor que “só erra quem tenta introduzir um passo novo e realiza um movimento diferente”. Mas para arriscarmos algo novo, temos de estar dispostos a errar. Portanto, sem ousadia para se superar e tolerância aos erros honestos não haverá mudança ou inovação.

A dança social é um exercício genuíno de humildade e de respeito à diversidade. Devemos saber dançar com qualquer par, independentemente de raça, cor, gênero, nível social ou hierárquico. E mais do que isso: temos de adaptar-nos ao outro com gentileza, cortesia e simpatia. Nos grandes eventos que envolvem competições nos Estados Unidos, por exemplo, uma iniciativa bastante interessante é o troféu concedido ao melhor “dançarino social”. Juízes infiltrados nos bailes avaliam e premiam aqueles que dançam com qualquer pessoa, sem fazer nenhum tipo de discriminação, inclusive pelo grau de competência – porque seria bastante tentador só querer dançar com os melhores.

Nem todas as pessoas estão abertas a aprender algo novo, porque isso exige aceitar e encarar o desconhecido. As pessoas que têm dificuldade em perceber essa cilada afirmam que “a dança não é para mim” ou “eu sou muito duro para dançar”. É muito mais fácil evitar o desconforto que todo início nos impõe do que enfrentar o desafio. No entanto, afirmamos com convicção que a dança é para todos. Qualquer pessoa é capaz de dançar, assim como todos podem aprender a falar japonês – basta dedicar-se, ser humilde para reconhecer suas próprias dificuldades e não ter medo de superar suas barreiras pessoais. O mesmo comportamento ocorre nas empresas. A relutância em mudar a Estratégia que sempre deu certo no passado, ou as atividades que sempre fizemos da mesma forma, surge todas as vezes em que o contexto organizacional ou de mercado exige um reposicionamento – e nos deparamos com o medo, com a preguiça ou com a falta de humildade para nos transformarmos e evoluirmos.

Ao ler alguns desses insights que a dança social traz sobre o mundo do trabalho, você pode se perguntar se tudo isso não é básico demais para gestores ou colaboradores de uma empresa e, portanto, desnecessário compartilhar. Mas, então, por que nos deparamos, todos os dias, com o gap do saber-fazer nas relações interpessoais de gestão e trabalho de equipe nas empresas? Por que as pessoas reclamam tanto dos seus “chefes” e dos colegas de trabalho, com quem passam a maior parte de suas vidas, afirmando que não tomam atitudes simples e essenciais ao sucesso da organização? A resposta é muito simples: porque liderar não é um processo natural. É consequência de um esforço consciente, atento e por vezes planejado. E se desejamos um bom líder, também devemos ser bons seguidores. É muito fácil reclamar do gestor quando não fazemos nossa parte como pares, buscando sintonia no trabalho diário para alcançar objetivos comuns. Consciência e autoconhecimento exigem treinamento, repetição. As habilidades socioemocionais, desenvolvidas na dança de salão, servem a esse propósito com diversão, e ainda por cima promovem a expansão da autoestima do indivíduo.

 

Fernando Luzio (www.fernandoluzio.com.br) é Consultor, Leadership Coach e Palestrante internacional. Fundador e Chairman da Luzio Strategy Group (www.luzio.com.br), consultoria de Gestão Estratégica. Professor de Estratégia do MBA da FIA/FIPE USP e Autor do livro Fazendo a Estratégia Acontecer. “Desde criança sempre adorei dançar. Nos bailes de sábado à noite, eu me divertia e renovava minhas energias graças às propriedades terapêuticas que o entrosamento do corpo com a música sempre proporcionam. Há cinco anos, eu me apaixonei pelo West Coast Swing, um estilo de dança de salão californiano que tem conquistado milhares de jovens americanos, europeus e, mais recentemente, brasileiros. Em todas as aulas e bailes, além de sair mais feliz pelo simples prazer de dançar, aprendizados despertam reflexões frequentes sobre os desafios de mobilizar pessoas em torno de um propósito comum. Aproveito as pontes que se formam naturalmente entre a dança e a vida executiva para refletir sobre meu estilo de liderança.”

Imagem: Fabiana Terra
Imagem: Fabiana Terra

Fabiana Terra (www.fabianaterra.com) é Dançarina e Coreógrafa de atuação internacional. Acumula inúmeros troféus de grandes competições no Brasil e no exterior, tem conduzido workshops e realizado turnês (shows) em diversos países, tais como Japão, Estados Unidos, Alemanha, Argentina e Venezuela. Participa da comissão julgadora dos principais festivais de dança em diversas cidades do Brasil. Há 24 anos, Fabiana é empreendedora, dirige e é professora da academia de dança em São Paulo que leva seu nome, a Cia Terra (www.ciaterra.com.br), formando centenas de alunos e profissionais de dança. Trabalhou na Rede Globo por dois anos como coreógrafa do Programa Dança dos Famosos do Faustão.

 

 

 

 

 

 

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